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SILVEIRA, José Ricardo.
"Duração de uma Jornada contínua de Trabalho - A Propósito do Apagão Aéreo e os Controladores de Vôo". (Artigo publicado na Revista
"Banas Qualidade" – Edição nº 184 - Setembro 2007).
Já por ocasião do acidente do avião da GOL, no centro oeste do país, o tema apareceu:
os controladores de vôo tinham jornadas de trabalho acima do normal, o que reduzia a capacidade deles na tarefa de
fixar o olhar em consoles de computadores e tomar decisões sobre trajetos de aviões.
Posteriormente, a mesma questão voltou a aparecer dentre as “reivindicações” destes profissionais,
quando tentavam justificar a “greve branca” que realizaram.
Finalmente, mas com menor ênfase, pilotos aventaram a hipótese de que os possíveis erros cometidos
na condução do avião acidentado da TAM, pudessem resultar também de excesso de horas seguidas de trabalho.
Tudo isso me levou a rever um trabalho que havia feito anos atrás, tratando do mesmo problema de
duração de uma jornada continua de trabalho no caso de hospitais e de modo particular, nas Unidades de Terapia Intensiva
(UTI). Na época eu assessora uma grande empresa brasileira fabricante de equipamentos para UTI´s e nessa condição mantinha
um amplo e construtivo diálogo com os médicos intensivistas.
A coisa começou em abril de 1999, quando fiz uma palestra na Associação de Medicina Intensiva Brasileira
(AMIB). Disse na ocasião que o Homem foi concebido como um ser que comete erros. A taxa de erros varia conforme a natureza das
tarefas que executa, das circunstâncias em que trabalha e, sobretudo, da duração (tempo) da tarefa.
Para justificar a afirmativa, mostrei resultados de pesquisas realizados em todo o mundo, mostrando como o
erro humano é função do tipo, da conjuntura e do tempo. A maior parte destas pesquisas (pelo menos as que conheço), foram
realizadas por organismos militares, pela aviação e pela indústria nuclear.
Ao final, um dos participantes, um dos médicos presentes, me perguntou: "Qual o tempo que um médico poderia
trabalhar, em contínuo, numa UTI, sem perder a prontidão?"
Respondi não saber, não só a resposta, como duvidava que fosse possível ter uma resposta precisa, do tipo "12 ou 18 horas".
Com efeito, pergunta semelhante foi feita para saber a prontidão de muitos outros profissionais. Um caso que acompanhei de perto foi o dos
operadores de Salas de Controle de Centrais Nucleares. Pesquisas de vários anos mostraram que é impossível fixar limites precisos do máximo,
já que comprovadamente, este limite máximo varia de pessoa a pessoa. Todavia, os mesmos estudos mostraram que um limite poderia ser estipulado,
para garantir que todos os operadores estivessem em pleno estado de prontidão, em qualquer circunstância. Assim é uma regra mundialmente aceita
de que uma jornada máxima de 6 horas é admissível para estes profissionais. Ou seja, com esta duração garante-se de que a taxa de erros é minimizada.
Na ocasião coordenei uma pesquisa bibliográfica. Ela foi feita entre abril e junho de 1999. Posteriormente, entre março e maio de 2007,
orientei nova pesquisa a respeito e os resultados apresentados a seguir. Não há nenhuma pretensão de esgotar o assunto, mesmo porque a pesquisa não foi exaustiva.
Faço um parêntesis antes disso, para procurar definir o que vem a ser a "prontidão". O Dicionário Aurélio registra: "Prontidão = presteza,
agilidade, desembaraço, rapidez; rapidez na compreensão ou na execução de alguma coisa; estado de quem se acha pronto para fazer determinada coisa; estado de quem está
pronto a agir, a entrar em ação".
1) Recomendação do NIOSHI - National Institute for Occupational Safety and Health - Cincinnati – USA - a todas as áreas em que há trabalho
em horários “anormais” (ref.1):
- Evite horários de trabalho exclusivamente noturnos.
- Reduza, ao mínimo, trabalhos noturnos em dias consecutivos.
- Evite mudanças rápidas de horários.
- Evite o sistema de mini - férias (5 a 7 dias), para compensar vários dias (10 a 15) de trabalho contínuo em horários "anormais".
- Reduza, ao mínimo, períodos longos de trabalho.
- Leve em consideração que, conforme os horários, a duração da jornada deve ser diferente.
- Mantenha horários regulares e previstos antecipadamente.
- Leve em consideração necessidade de tempos de repouso, durante a jornada.
2) Estudo realizado com residentes de Otorrinolaringologia em 1991: trabalho em turnos de 24 horas não tem efeitos indesejáveis se for
realizado em média 2,1 dias por semana e com uma duração máxima de 80 horas por semana.
3) Estudo realizado com médicos juniores em 1978: 3 horas a menos de sono (sobre as 8 horas normais), após um período de trabalho contínuo
de 18 a 24 horas, reduz, de forma importante, a eficiência na solução de problemas (medição através de testes).
4) Diversos estudos realizados entre 1987 e 1990 permitem concluir que o trabalho noturno é 5 a 10% menos eficiente do que o trabalho diurno,
para uma mesma duração. Esta diferença se acentua quando a duração aumenta, sobretudo se o nível de energia despendida é elevado.
5) Estudo realizado entre 1981 e 1990, com operadores de Salas de Controle, que trabalhavam 10 a 12 horas contínuas, durante 3 a 5 anos: tais
pessoas têm uma redução do nível de atenção comparado às pessoas que trabalham apenas 8 horas, sobretudo quando este trabalho mais longo ocorreu à noite.
6) Estudos realizados na década de 80, envolvendo operadores de Salas de Controle de Centrais Nucleares, enfermeiras, médicos residentes e
militares: a performance profissional e pessoal cai em função das horas de trabalho “anormais” e ou com longa duração (acima de 12 horas por dia).
7) Estudos realizados com residentes médicos, entre 1970 e 1985 concluem que o sistema de 100 horas semanais e ou de 36 horas em contínuo são
desaconselhados (redução da capacidade de vigilância e de concentração).
8) Trabalho realizado em hospitais na década de 80, com médicos “Juniores”, conclui que evidências de fadiga, com significativos riscos para as
escolhas de ações a realizar, ocorrem após 24 horas de trabalho contínuo.
9) Estudos realizados entre 1995 e 2000 pela Emory University, indica que muitos erros médicos são cometidos por fadiga mental, sobretudo após
"jornadas duplas", isto é, de 16 a 24 horas, mesmo quando há, teoricamente, a possibilidade de pequenos períodos de repouso no próprio local de trabalho (hospitais).
10) Estudos do Ministério Público do Trabalho (Jornal "O Estado de São Paulo" em 05/06/07) constatam que os "Controladores de Vôo", "além do regime
de trabalho continuo de oito horas, tem outras atividades profissionais consecutivas na própria Arma, tais como a guarda e exercícios militares".
11) Estudos realizados, no período 1990-1995, por empresa de consultoria na área de ergonomia, dentro de laboratórios farmacêuticos, mostraram que a
partir de períodos de 3 horas, operadores que trabalham em postos de trabalho destinado ao controle visual de ampolas ou outras embalagens, começam a cometer erros em porcentagem mais elevada.
Tire o leitor à conclusão que julgar melhor. De minha parte, baseado na experiência profissional, nas áreas industriais, e se fosse responsável por escalar:
a) médicos para estar de prontidão numa UTI, ou
b) controladores de vôo, ou
c) inspetores de qualidade em fábricas, nos postos em que a acuidade visual é essencial, ou
d) observadores de qualquer natureza, frente a consoles (como, por exemplo, vigias)
definiria (sem poder justificar):
Para manter um nível de segurança adequado e uma taxa de erro aceitável, tipo Central Nuclear ou a condução de aviões, o regime de trabalho deveria ser – no máximo - de 8 horas por dia,
especialmente se ocorrer regularmente no período noturno. E não adiantam minimizar o efeito da fadiga por eventuais repousos, feitos no próprio local de trabalho.
Referências
1)"Plain Language about Shiftwork" - US Departement of Health and Human Services – Publication nº 97-145 – July 1997.
2)"Resident Work Hours an Working Environment in Otolaryngology" – Journal of the American Medical Association, Vol 266, nº 10 – 1991.
3)"Performance of Juniors Hospital Doctors Following Reduced Sleep and Long Hours of Works" – Ergonomics – Vol. 21, nº 4 – pages 279 – 295.
4)"Intervention Factors for Promoting Adjustement to Nightwork and Shiftwork" - Occupational Medicine – State of the Art Reviews – Vol 5 nº 2 – April – June 1990.
5)"Performance, Alertnesss, and Sleep after 3 – 5 Years of 12 h shifts: a Follow-Up Study" – Work & Stress, 1991, Vol. 5, nº 2.
6)"Biological Rhythms: Implications for the Workers" – Office of Technology Assessement – US Congress – OTA Report Brief - September 1991
7)"A Review of Studies Concerning Effects of Sleep Deprivation and Fatigue on Residents Performance" - Academic Medicine, Vol 66, nº 11, pages 687 – 693 – 1991
8)Work Performance and Health of Juniors Hospital Doctors. A Review of the Literature – Work and Stress, Vol 3, nº 2 – pages 117 – 128 – 1989.
9)Medical Mistakes: Human Erros or System Failure – Momentum Fall 2000 – Emory University – Institute of Medicine – USA.
Sobre o autor: José Ricardo da Silveira - Engenheiro - ITA 1959
35 anos de experiência profissional em gerenciamento empresarial.
7 anos de residência na França.
Atualmente é Consultor de Processos de Gerenciamento.
Co-responsável pela tradução do livro "Human Dynamics" para o português.
Sócio Diretor da SIEG - Sociedade Internacional para Excelência Gerencial - empresa de consultoria na área de processos de gerenciamento,
com base nos ensinamentos de Edward Deming.
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